Tão leve quanto a brisa, tão forte quanto o fogo...


(Pentecostes)

Ainda eram audíveis, quase, as suas palavras, pronunciadas com espírito e coragem, do alto das montanhas, nas praças, nos templos das aldeias, à luz do dia, nas alcovas e nos bosques, noite adentro, quando Ele confortava os tristes, devolvendo-lhes a alegria, tomava pelas mãos os perdidos, reerguendo-os, desconcertava os presunçosos, travesso e espirituoso. Com palavras e gestos cheios de vigor e delicadeza, seriedade e beleza, ele a todos convidava à liberdade, à confiança, à largueza de coração, a uma vida afeiçoada ao mundo e aos homens e apaixonada pelos céus e por Deus.

E foram tantos os que, junto dele, redescobriram o que significa viver: expressando a beleza de sua alma, depois de anos de reclusão no cárcere do silêncio; caminhando com as próprias pernas, quando se imaginavam, para sempre, entrevados; sabendo-se, também eles, filhos e filhas de Deus, quando já se consideravam para sempre excluídos da terra e indignos dos céus, imorais, impuros, imundos, repulsivos aos homens e a Deus, perdidos, enfim.

Era o que sonhava e queria Jesus de Nazaré: que, livres dos medos e complexos que nos levam à maldade, bailássemos, felizes e em paz, generosos e humanos, quais borboletas de gracilidade, entre esta terra que é de Deus e os céus de nossas esperanças.

Mas nem bem começado, tudo já estava encerrado. Como num pesadelo, Jesus é vitimado exatamente por aquilo que ele mais tentara combater: o medo, a mentira, a mesquinharia, a estreiteza e a dureza de coração, tudo isto, agora, voltado contra ele, letalmente, numa sinistra e macabra mistura de religião, política, jogo de poder e traições.

Os discípulos de Jesus, se ainda não o sabiam, agora o aprenderam: nós homens somos capazes não só de dizer inverdades, cinicamente, de difamar alguém, maliciosamente, de calcitrar os mais lindos sonhos de amor, violentamente. Não, a nossa frieza é mais glacial ainda: podemos chegar a uma brutalidade da qual não são capazes nem mesmo os animais. Os cientistas que se ocupam da matéria asseguram-nos que os animais agridem e matam apenas em duas circunstâncias: ou quando se sentem ameaçados, ou para matarem a sua fome. Apenas o homem é capaz, por exemplo, de interromper o vôo feliz e gracioso de uma ave nos céus, que não é sua, mas de Deus, não para saciar sua fome, mas apenas para aferir ou aprimorar a sua pontaria.

Um pássaro mortalmente ferido em pleno vôo: Jesus Cristo. Por que? Em nome de quê? Em favor de que ordem? Em defesa da religião? Em nome de Deus? Quiçá tenha-nos ficado claro, desde aquela terrível sexta-feira da morte do Senhor, ao menos e para sempre, isto: toda verdade, anunciada sem um sorriso nos lábios, é diabólica, ainda que se queira divina; todo juízo, pronunciado com a acidez da impiedade, é devastador, ainda que se insinue como edificante; toda religião, proclamada como uma sentença de morte, é demoníaca, mesmo que se tenha como sagrada; toda ordem, defendida, incondicionalmente, sem lágrimas nos olhos, é inumana, ainda que se considere justa e necessária. E todo medo, que nos leve à traição daquilo que em nós sentimos como verdadeiro, ainda que compreensível, será sempre: mortal!

Como crer ainda nos homens, quando se viu, estarrecido, do que eles são capazes? Assombrados, os discípulos de Jesus se trancam, portas aferrolhadas, entre as paredes invisíveis do seu medo. Tudo que, um dia, lhes foi vida é, agora, apenas uma saudade. As Escrituras afirmam que os discípulos de Jesus, dilacerados quase entre as fantasmagorias de seus medos e as consoladoras visões de suas recordações, vagaram vida afora, por um longo tempo: cinqüenta dias. E aqui, recolhidos nalgum lugar, quando todos em Israel se recordavam que os laços da afeição de Deus pelos homens jamais se rompem (Pentecostes = qüinquagésima depois da Páscoa = festa memorial da Aliança do Sinai), os discípulos de Jesus sentiram-se visitados por algo que, como fogo, os iluminou e, como um vento benfazejo, alentou-lhes o espírito.

É como se, de repente, os céus se abrissem sobre eles e, do alto, derramassem-se chuvas de um novo ânimo, fecundando o solo sem vida de suas vidas, ou como se se erguesse, naquele instante, depois de uma longa noite de frio e trevas, um sol radiante, inundando-os de luz e calor. As portas se abrem, não apenas do lugar em que, enclausurados, se encontravam, mas também da sepultura de seu medo, desespero e desânimo. E eles vêm para fora: para a vida. Agora, eles o sabem: sim, com Moisés, Deus inscreveu sua vontade em tábuas de pedra, mas em Jesus Cristo, ele se cravou, irrevogavelmente, no coração do mundo e dos homens (At 2,17-21).

Segundo uma antiqüíssima convicção dos cristãos, a Igreja teria nascido nesse dia, em que os discípulos, ressurgindo dos escombros que a morte de Jesus provocara em sua própria vida, retomaram publicamente as atividades de seu Mestre. Jesus fora embora, sim, da visibilidade deste mundo (Ascensão). Agora, ele estava junto de Deus e, como Deus, em todos os lugares.

Mas queira Deus e permitam os homens que a Igreja jamais se esqueça do que ela foi naquele dia do seu natal, no primeiro instante de sua nascividade: uma linguagem que todos entendiam, donde quer que viessem e onde quer que se encontrassem, uma bênção sobre todos, um pedacinho do mundo, onde os desesperados reconquistaram o ânimo, os perdidos reencontraram as sendas da vida, os homens, todos, experimentaram não o rigor de uma inflexível organização e a fria exatidão de algumas doutrinas, mas a leveza de uma brisa e o calor de uma luz que lhes veio do Alto. Assim era Jesus de Nazaré e assim deveria ser seu sacramento, a Igreja. Pois entre nós Ele esteve, não para nos ensinar como construir magníficas igrejas entre choupanas empobrecidas e casebres miseráveis, mas para fazer da vida dos homens um templo sagrado.

Só assim Pentecostes deixaria de ser o que, hoje ainda, é: uma celebração apenas, tão litúrgica quanto letárgica, tão insigne quanto insípida, tão festiva quanto inóqua, cinzas apenas de uma explosão ígnea e nada mais, para ser o que nos é, hoje, tão urgente: um novo natal da Igreja. Um instante em que permitíssemos entrarem pelas portas e janelas de nossa Igreja ventos celestiais que levassem para bem longe de nós toda morbidez dos medos e desânimos e comodismos e infantilismos, iluminando-nos as mentes, abrindo horizontes, fecundando os corações, enternecendo-nos a todos, firmando-nos na esperança, numa nova coragem para dentro, numa nova afeição e cuidado pelo mundo.